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Além do Horizonte

Neste blog poderá encontrar temas relacionados com a inclusão, a forma de descomplicar e informar sobre a cegueira, bem como as dificuldades que sentimos no dia-a-dia.

Além do Horizonte

Neste blog poderá encontrar temas relacionados com a inclusão, a forma de descomplicar e informar sobre a cegueira, bem como as dificuldades que sentimos no dia-a-dia.

Quem disse que os cegos não desfilam no carnaval?

27.02.20, Além do Horizonte

Hoje trazemos para o nosso publico, a participação pelo quinto ano consecutivo, após ter perdido a visão, no desfile de um dos melhores carnavais do país, por uma das nossas colaboradoras do nosso blog, Ana Dias. Cega a quase seis anos, nunca escondeu a sua paixão pelo carnaval, mesmo após ter perdido a visão, continua desfilando com toda a garra e dedicação pelas ruas de Loureiro, espalhando todo o seu brilho e glamour, contagiando todos aqueles que amam e apreciam o carnaval.

Com samba no pé, representou por cerca de sete anos as escolas de samba Independentes, onde desfilou como comissão de frente, passista, figurante de carro, e a escola Vai Quem Quer, como figurante de carro. Nos últimos quatro anos e após ter ficado cega, tem representado como madrinha, o grupo de dança de Loureiro, que este ano trouxe para o seu desfile, o tema Mundo encantado.

Neste ultimo sábado, 22 de fevereiro de 2020, ela juntamente com mais participantes do grupo de dança, desfilou durante mais de duas horas pelas ruas de Alumieira, e nesta terça feira de carnaval por mais de três horas pelas ruas de Oliveira de Azemeis, deixando todos de queixo caído por onde ela passou, mostrando a sua beleza, atitude, animação e determinação.    

Ana Dias, claramente um exemplo a seguir, deixando bem claro que para ela a deficiência visual é apenas uma pequena limitação, que não a torna mais nem menos que os outros, e que não a impede de ser e nem fazer qualquer coisa que ela assim desejar. Para além de todos os pesares, mostra-nos que a incapacidade e os obstáculos podem ser ultrapassados, com uma enorme força de vontade, que a tem mantido firme e forte em todas as suas peripécias, assim como as borboletas, traje a qual ela trazia vestida. A borboleta como o símbolo da transformação, não poderia ser aplicada de maneira mais coerente, do que no caso da Ana Dias, pois com certeza ela irá com base na pessoa iluminada, guerreira, corajosa e persistente que ela se transformou, incentivar e encorajar muitos outros a sentirem, e experimentarem  a energia positiva do carnaval.

Vamos todos ajudar na inclusão, e na integração de pessoas com deficiência nas nossas sociedades, e fazer com que esta borboleta inspiradora flutue, e voe para além do horizonte?

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Descrição da foto: Ana Dias a desfilar com um fato justo preto e umas asas cor de laranja com nuances pretas.

Quer saber como é possível um cego desfilar no carnaval? Fique atento no próximo artigo onde Ana Dias, irá contar detalhadamente em primeira mão, todas as suas experiências e sensações vividas nestes últimos anos da sua vida no carnaval, representando não só os deficientes visuais, mas todos os deficientes em geral.

 

Elenir Soares

Cego sim, ceguinho nunca!

20.02.20, Além do Horizonte

Olá! Para dinamizar mais o blog, vou ter a participação de mais um amigo. É o Elenir, que também é cego, e este é o seu primeiro post!

Bem-vindo Elenir

 

Cego sim, Ceguinho nunca

 

Muitos, por desconhecimento ou para cumprir o politicamente correto, chamam-me ceguinho, mas será que sou assim tão pequeno?

Deixam-me viver, deixam-me trabalhar, deixam-me ser feliz a minha maneira, pois tenho as minhas limitações, mas não sou incapaz. Se é verdade que tenho um atestado multiuso de 91%, por outro lado tenho muitas e boas qualidades que me definam como ser humano. Parem de me julgar pela minha bengala branca, sim é verdade, esta vareta, pau, muleta como muitos já lhe chamaram, é a minha companheira de todas as horas, cujo passou a ser os meus olhos a mais de cinco anos, que me leva para todos os lados.  

Procuro oportunidades para mostrar o que eu valho, mas não deveria ter que provar que sem ver que tenho muitas outras competências, pois esta barreira me mantem longe dos meus objetivos, e por mais que eu me esforce, e olhem que tenho esforçado muito, sempre haverá uma grande dificuldade para combater a cultura da ideia do ceguinho.

  Não tenham medo de aproximar, não tenham medo de perguntar, pois mais vale fazer uma pergunta que possa parecer estupida, as quais na maior parte das vezes não são, do que continuar na ignorância. 

Não pensem que dizer que eu sou cego é ofensivo, muito pelo contrário  não tem nada de mal, mas chamarem-me ceguinho sim, pois dá uma conotação diminutiva que remete. para adjetivos tais como coitadinho, incapaz entre muitos outros, as quais ninguém gosta de ser identificado.

Atualmente não se sabe exatamente quantas pessoas com deficiência visual existem em Portugal, mas eu não os conheço a todos e nem sou colega deles todos, portanto quando entro no café, só para citar uma das dezenas de exemplos, não quero que me ajudem a sentar com uma outra pessoa apenas por ela ser cega, e acharem que tenho a obrigação de conhecê-la.

Nesta nova era das sociedades da informação e do conhecimento, a mentalidade das pessoas embora ainda pouco conhecedoras das deficiência visuais, tem vindo a mudar, criando assim um novo sentido de responsabilidade, permitindo a integração de pessoas com deficiências na sociedade e no mercado de trabalho. Apesar deste esforço todo para a nossa integração, ainda há muito trabalho a ser feito, e não poderia deixar de agradecer a todas as pessoas e empresas que abraçaram esta causa, e reconhecer que estamos a progredir a passos largos, e espero que esta febre seja cada vez mais contagiosa, pois com toda a certeza quero evoluir cada vez mais e voar para além do horizonte.   

 

Elenir