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Além do Horizonte

Neste blog poderá encontrar temas relacionados com a inclusão, a forma de descomplicar e informar sobre a cegueira, bem como as dificuldades que sentimos no dia-a-dia.

Além do Horizonte

Neste blog poderá encontrar temas relacionados com a inclusão, a forma de descomplicar e informar sobre a cegueira, bem como as dificuldades que sentimos no dia-a-dia.

Um cego na crista da onda

14.03.20, Além do Horizonte

O evento SEA AND SEE, Que teve lugar no norte do país, com pessoas oriundas de várias cidades de Portugal, foi uma das maiores aulas de surf adaptado jamais realizado no mundo e contou com a presença de cerca de uma centena de pessoas, entre elas 50 deficientes visuais e 50 normo visuais, que se dividiram entre guias, acompanhantes, amigos e surfistas profissionais, provenientes de vários locais do país, tais como Lisboa, Leiria, Coimbra e Monção.

A praia de Cortegaça em Ovar, já habituada a grandes surfistas e ondas perfeitas por causa das suas condições ideais para a prática da modalidade, foi o palco escolhido para a realização pela primeira vez do evento, e contou com um grande espetáculo e com mais uma demostração de que a cegueira é apenas uma pequena limitação para quem assim acredita.

Trajados a rigor, com os seus fatos de surf, os deficientes visuais que estiveram sempre acompanhados pelos seus devidos guias durante todo o evento, e dentro de água por cerca de seis pessoas entre elas surfistas profissionais, começaram por surfar a poucos metros da costa, com ondas mais pequenas até se adaptarem, pois o grande intuito era apenas experimentarem um dia diferente com uma modalidade adaptada para os cegos, sem que houvesse riscos ou perigos eminentes.  

Já dentro do mar, e após pequeno treinamento e aquecimento sobre a prancha na areia da praia, finalmente os cegos puderam experimentar a sensação marulhosa de deslisar pelas ondas da praia de Cortegaça. Enquanto os surfistas novatos estiveram sobre as suas pranchas dentro de água, e entre as seis pessoas que estiveram sempre com elas, contou  um guia que o acompanhou desde o início ao fim do evento, e outros cinco professores da escola Surf AtNight, divididos entre ambos os lados do cego, formando assim um corredor de segurança, dando todo o apoio e assegurando todas as precauções necessárias. 

Segundo entrevistas recolhidas pela Catarina Silva, repórter do JN (Jornal de Notícias), entre as quais por um dos nossos integrantes do blog Além do Horizonte Elenir Soares, mais conhecido por Leni Soares: “Mais habituado ao mar está Leni Soares, de Gaia.

Cresci num país cheio de praias”, dizia o Cabo-verdiano que perdeu a visão aos vinte e três anos por causa das diabetes.

“Nunca tinha experimentado surf. É uma sensação de liberdade. Se pudesse tinha ficado horas.”   

Por outro lado, Isabel Cardoso, também surfista de primeira viagem, foi uma das quais mais se destacou. “Da primeira vez que subiu a uma prancha, aos quarenta e um anos, pós se logo de pé. “Afinal não tive receio e a sensação é espetacular.””.

Esta iniciativa partiu da voluntária da equipa de goalball do clube desportivo de Fiães, Sofia Costa, com o intuito  de realizar o sonho de uma aluna, de algum dia poder experimentar fazer uma aula de surf, onde acabou no final por conseguir juntar cerca de uma centena de pessoas, realizando os sonhos de muitos e proporcionando para outros uma experiencia inesquecível.

Este evento para além das entidades referidas, ainda contou com o apoio da Junta de Freguesia de Fiães, a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, a Junta de Freguesia de Cortegaça, onde estas almejam a progressão desta iniciativa para todos os cantos do país, realizando-a pelo menos três vezes ao ano.  

No final, não haviam palavras suficientes para descrever o que se tinha vivido naquele dia intenso e espetacular, nem para os principais atletas cegos, e nem para todos os outros que participaram por livre e espontânea vontade,  a troco de nada, simplesmente pela vontade de ajudar o próximo e mostrar ao mundo de que os limites foram feitos para serem superados, e especialmente para nós, por sermos levados na crista das ondas, para além do horizonte.

 

Escrito por: Elenir AD Soares